A governação da Água como instrumento de prevenção, mediação e resolução de conflitos domina a agenda da 4.ª edição da Bienal de Luanda, marcada para hoje e amanhã, na capital angolana.
O encontro, que reúne representantes de governos, organizações internacionais, sociedade civil, comunidade científica e juventude, dá continuidade a uma iniciativa que, desde 2019, procura fortalecer a cultura de paz em África através do diálogo, da cooperação e do intercâmbio cultural.
Promovida pelo Governo de Angola, pela União Africana (UA) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Bienal de Luanda, Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz e Não-Violência, chega à quarta edição com o desafio de transformar a reflexão em compromissos concretos, capazes de contribuir para a prevenção de conflitos e o desenvolvimento sustentável.
A escolha da Água como tema central para 2026 reforça a importância da gestão partilhada dos recursos hídricos num continente confrontado com desigualdades no acesso à água potável, pressões decorrentes das alterações climáticas e disputas relacionadas com rios, bacias hidrográficas e terras férteis.
A edição deste ano está alinhada com o tema da União Africana dedicado à disponibilidade sustentável de água e a sistemas de saneamento seguros. As discussões serão organizadas em torno de quatro eixos, água, paz e cooperação transfronteiriça; governação da água e cidadania científica; água, alterações climáticas e migração; e investimento na água e desenvolvimento de capacidades.
Em entrevista à Rádio França Internacional (RFI), a coordenadora internacional da Bienal, Ana Elisa Santana Afonso, defendeu a necessidade de encarar a paz como uma construção colectiva, alimentada pela educação e pelas práticas quotidianas.
A responsável chamou a atenção para o papel da educação na transformação das mentalidades e na prevenção da violência, considerando que a gestão dos recursos naturais também pode aproximar comunidades, favorecer a circulação de ideias e promover a interculturalidade.
A água, frequentemente associada a disputas pelo acesso e utilização, pode, igualmente, constituir um factor de cooperação entre países. A gestão partilhada dos recursos hídricos exige, por isso, mecanismos de diálogo, conhecimento científico e entendimento entre os Estados.
O especialista Sacaia Fernando em declarações à Rádio Nacional de Angola (RNA), ao abordar a importância do tema, destacou o potencial hídrico de Angola na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), salientando a necessidade de uma gestão capaz de responder às necessidades das famílias, das empresas e dos governos.
A expectativa é que o encontro contribua para reforçar a cooperação entre países africanos, aproximar investigadores e decisores e produzir orientações para uma gestão mais equilibrada dos recursos hídricos.
Três edições, uma agenda de paz
Desde a primeira edição, realizada em Setembro de 2019, a Bienal de Luanda tem procurado afirmar-se como um espaço de reflexão sobre os desafios do continente, reunindo dirigentes políticos, organizações internacionais, artistas, investigadores e representantes da sociedade civil.
Ao longo das três edições anteriores, os debates passaram pela mobilização de parceiros para a construção de uma cultura de paz, pela valorização das artes, da cultura e do património e pela importância da educação e da cidadania africana para o desenvolvimento sustentável.
2019 — Mobilização de parceiros para a paz
A primeira edição decorreu de 18 a 22 de Setembro de 2019, em Luanda, sob a designação de Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz. Durante cinco dias, os participantes discutiram formas de promover sociedades mais pacíficas, inclusivas e democráticas, valorizando a diversidade cultural, os direitos humanos e a rejeição da violência.
O programa integrou quatro grandes iniciativas: Fórum de Parceiros, Fórum de Ideias, Fórum das Mulheres e Festival de Culturas. Os encontros procuraram reunir experiências, conhecimentos e propostas para reforçar a cooperação em torno da cultura de paz.
Entre as principais conclusões destacou-se o apelo à formação de uma coligação alargada de parceiros, envolvendo comunidades económicas regionais, instituições académicas, associações profissionais, organizações internacionais, sector privado, sociedade civil e personalidades influentes, em África e no exterior.
A edição contou com a presença do Presidente da República de Angola, João Lourenço, e dos então Presidentes da Namíbia, Hage Geingob, e do Mali, Ibrahim Boubacar Keïta. Participaram, igualmente, o então director-geral da UNESCO, representantes da União Africana, o médico congolês Denis Mukwege, laureado com o Prémio Nobel da Paz de 2018, e o antigo futebolista Didier Drogba.