O Governo angolano e as organizações internacionais continuam a trabalhar no reforço do processo de inclusão social e produtiva dos refugiados da República Democrática do Congo instalados no assentamento do Lóvua, no município com o mesmo nome, na província da Lunda-Norte.
Localizado a 15 quilómetros da sede municipal do Lóvua e a 85 do Dundo, o assentamento possui uma extensão de 300 hectares, dos quais 240 foram destinados à habitação, assistência em bens alimentares, água potável, serviços de saúde e educação. O espaço remanescente é utilizado para a agricultura.
O Jornal de Angola esteve no local e ouviu alguns membros e líderes daquela comunidade que, em Março de 2017, escapou dos conflitos políticos e étnicos na região do Kassai.
Koy Antoinette Ekoko, mais conhecida por “Mamã Antó”, 59 anos de idade, é um dos exemplos de mulheres refugiadas que estão a reconstruir a sua vida, sem olhar para os obstáculos.
Além de professora da 2ª classe, na escola do assentamento, Koy Antoinette Ekoko cultiva a terra, um meio que encontrou para o sustento da família.
Apesar de ter saído de uma situação dramática, Mamã Antó defende que “o refugiado pode levar uma vida normal no país de acolhimento, desde que não cruze os braços”.
A mandioca, o arroz, o milho, o tomate, a beringela e o quiabo são as principais opções agrícolas da Mamã Antó, que não escondeu a satisfação pela forma como o Governo e o povo angolano ajudaram as famílias refugiadas a superarem o “drama” que viveram no país de origem.
“Agradeço o apoio e o compromisso do Governo e do povo angolano em continuar a prestar apoio aos refugiados do Congo Democrático. O acolhimento que tivemos está a ajudar-nos a superar a situação difícil em que nos encontrávamos”, sublinhou.
Mamã Antó, que se expressou em português durante a entrevista, entende que o refugiado não se deve limitar ao apoio humanitário que recebe, mas desenvolver também outras actividades.
Recentemente, teve uma colheita de 99 sacos de 50 quilos de arroz, cuja venda, nos mercados do Lóvua e da cidade do Dundo, permitiu a compra de uma motorizada de três rodas. Com este meio, transporta a produção para os locais de comercialização.
Principal ganho
Encontrar a paz e a segurança em Angola é o principal ganho apontado por Mamã Antó, que deixou bens, amigos e trabalho, devido à insegurança.
Antiga funcionária da Direcção Geral de Migração (DGM) na província do Kassai, na cidade do Tshikapa, reconheceu que não existe nada melhor do que ter certeza de um clima de paz, uma vez que sem isso é difícil as pessoas alimentarem sonhos.
A entrevistada apelou ao Governo angolano que acelere o processo de atribuição dos documentos do Estatuto de Refugiado. Pediu a intervenções das autoridades angolanas para a atribuição de uma máquina de descasque de arroz, uma vez que o trabalho tem sido feito manualmente.
Segundo a entrevistada, em 2020, na fase da pandemia da Covid-19, produtos das lavras dos refugiados do assentamento do Lóvua, como o arroz e os derivados da mandioca, contribuíram significativamente para o abastecimento de diferentes mercados da região.
Vida tranquila
Bampendi Rose, de 48 anos de idade, que partilha a casa com dois filhos, é uma das refugiadas que trabalha com a ONG Visão Mundial, com a tarefa de controlar o processo de distribuição de água potável, num dos chafarizes.
Oriunda da província do Kassai Ocidental, em Maio de 2017, depois de fugir do conflito, Bampendi Rose afirmou que as pessoas no assentamento vivem tranquilamente, contando com a assistência do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e parceiros.
O sonho da família, segundo Bampendi Rose, é construir um restaurante em Angola e voltar a exercer a mesma actividade que tinha no país de origem.
Kabubu Marthe, mobilizadora junto da Igreja Evangélica dos Irmãos em Angola (IEIA) na área da saúde, chegou a Angola em Abril de 2017. Vive no assentamento com o esposo e quatro filhos, que estão a refazer as suas vidas.
De 38 anos de idade, Kabubu Marthe espera que os filhos possam concluir os estudos e ter uma vida tranquila.
Entre eles, um de 13 estuda a 6ª e outro, de sete anos de idade, frequenta a 3.ª classe.
Jean Paul Kapenga, 47 anos de idade, é formado em Psicopedagogia no país de origem, onde foi professor de Francês e Pedagogia. Disse estar feliz pelo facto dos filhos estarem a estudar.
Além de mobilizador social, Jean Paul Kapenga possui uma horta, onde produz tomate, quiabo, beringela e outras hortícolas para o sustento da família.
Um dos motivos de satisfação é a existência de um centro cultural, que ajuda na integração das pessoas. O espaço conta com salas de formação musical, biblioteca comunitária, corte e costura, reuniões e de exposição artística.