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“Precisamos de investidores com recursos, tecnologia e transmissão de conhecimento”

O Presidente João Lourenço sublinhou, ontem, em Roma, que a erradicação da fome exige respostas colectivas e uma arquitectura de segurança alimentar global.

Esta estrutura deve considerar factores políticos, financeiros, técnicos e científicos que influenciam as capacidades de produção agrícola e o seu desenvolvimento em escala mundial.
   Ao discursar na sessão de abertura do Fórum Mundial da Alimentação 2026, na sede da FAO, o Estadista angolano considerou urgente o aperfeiçoamento do modelo de cooperação internacional. Segundo defendeu, este novo modelo deve abandonar a lógica assente na dominação mútua e na obtenção de vantagens que ignorem os interesses de terceiros.
   Esses factos, de acordo com o Chefe de Estado, geram tensões e inviabilizam o diálogo e a concertação necessários para formular e implementar estratégias que garantam a paz, a estabilidade e a segurança mundial.
   Uma vez superados esses obstáculos, afirmou, será possível promover o desenvolvimento acelerado das economias e “erradicar ou reduzir consideravelmente a fome e a miséria em diferentes nações e regiões do nosso Planeta”.
   João Lourenço, que participa no evento a convite do actual director-geral da FAO, Qu Dongyu, salientou que os desafios acima referidos colocam os Estados diante da percepção de que a inovação deve ser vista de forma abrangente, e não circunscrita apenas à sua dimensão tecnológica.
   “A segurança alimentar é um objectivo e uma prioridade que só se conseguirá concretizar com benefícios para todos. No quadro de um esforço conjugado — e em função das responsabilidades e valências específicas de cada um —, devem intervir governos, o sector privado, instituições científicas, Organizações Não-Governamentais e a sociedade civil. No seu conjunto, estas entidades garantem uma abordagem transversal e uma solução integrada para o problema”, afirmou o Chefe de Estado.
Ao fazer uma análise do cenário actual, João Lourenço manifestou inquietação diante dos paradoxos do mundo contemporâneo. Segundo o Chefe de Estado, a abundância de comida nos países desenvolvidos, impulsionada por sua alta capacidade tecnológica e produtiva, “contrasta dolorosamente” com a dificuldade de acesso a alimentos de milhões de pessoas em vastas regiões do planeta, que continuam confrontadas com a fome e a má nutrição.
   “Estamos diante de uma realidade que exige atitude e urgência moral. É preciso ir além da simples constatação dos factos e partir para acções concretas. Isso inclui capacitação técnica, transferência de tecnologia e mobilização de recursos para investir na agricultura dos países menos desenvolvidos”, defendeu o Presidente da República.
Entraves às cadeias de abastecimento 
Além das limitações técnicas, o Estadista angolano apontou que a fome é agravada pelo eclodir cíclico de conflitos armados e pelas alterações climáticas. Enquanto as guerras quebram as cadeias logísticas globais e geram crises humanitárias, os fenómenos climáticos extremos — como tempestades, cheias, secas severas e pragas — destroem directamente a produção agrícola.
África tem potencial para ser o celeiro mundial 
No seu discurso, o Presidente da República realçou que África tem potencial para ser o celeiro do mundo, graças à abundância de terras aráveis, sol, clima favorável e vastos recursos hídricos.
 No entanto, reconheceu que o continente necessita de investidores com capital e tecnologia, além da transmissão de conhecimento aos jovens. Para o Estadista, este apoio é fundamental para aumentar a produtividade por hectare, melhorar a qualidade das colheitas e elevar o volume de produção, impulsionando as exportações agrícolas e pecuárias e a formação do Produto Interno Bruto (PIB) dos países africanos.
O continente, prosseguiu, possui um vasto potencial para desenvolver uma agricultura florescente. No entanto, ainda se confronta com a fome e a desnutrição, uma realidade que João Lourenço considerou inaceitável.
O Estadista angolano sublinhou que este cenário resulta de múltiplos factores, como os conflitos armados, o impacto das alterações climáticas e a falta de capacitação para o fomento da agricultura familiar, que classificou como a “espinha dorsal” do sistema de produção alimentar africano.
Para o Chefe de Estado angolano, o diagnóstico destes problemas persistentes exige a implementação imediata de políticas públicas realistas e pragmáticas, que fujam de metas utópicas e se foquem em soluções de execução imediata.
João Lourenço defendeu que estas estratégias devem basear-se, prioritariamente, no aproveitamento integral dos meios técnicos e das ferramentas tecnológicas já disponíveis no mercado global, adaptando-as à realidade local das comunidades.
Adicionalmente, sublinhou a urgência de potenciar e melhorar as práticas agrícolas tradicionais — muitas vezes resilientes, mas limitadas —, integrando-as com a ciência moderna.
O Estadista angolano concluiu que nenhum destes passos será sustentável sem uma aposta massiva na formação de quadros a todos os níveis, desde a capacitação dos pequenos produtores rurais na base até à especialização técnica de engenheiros e gestores agrários capazes de liderar a modernização do sector.
 Programa nacional de combate aos efeitos da seca 
O Presidente da República compartilhou, durante o Fórum, algumas medidas em curso para travar a seca no Sul do país. Entre as iniciativas, João Lourenço apontou o Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul de Angola (PCESSA), que abrange as províncias do Cunene, Huíla e Namibe, orçado em 4,2 mil milhões de dólares, já parcialmente executado e que vai contribuir significativamente para o combate à fome e à pobreza.
O Estadista explicou que o Programa prevê a construção de albufeiras para armazenar milhões de metros cúbicos de água do rio Cunene. A infra-estrutura inclui ainda centenas de quilómetros de canais a céu aberto, projectados para abastecer as populações e viabilizar o desenvolvimento da agricultura e da pecuária em qualquer época do ano.
João Lourenço enalteceu a cooperação profícua com a FAO, sublinhando a forte contribuição da organização no impulso ao sector agropecuário em Angola. Este esforço conjunto tem sido decisivo na definição de prioridades estratégicas, cujos resultados positivos já são visíveis.
Segundo o Presidente, a parceria tem sido fundamental “no esforço que desenvolvemos de aproximar zonas de produção, centros de transformação alimentar e mercados”.
O Chefe de Estado destacou também as iniciativas Hand-in-Hand e Agro-Corredores como instrumentos fundamentais para atrair investimentos. Segundo o Presidente da República, estes programas são vitais para impulsionar o agronegócio e elevar a competitividade do sector agrícola nacional.
Para João Lourenço, esse processo só será viável com a criação de corredores económicos que garantam o comércio e a livre circulação de pessoas e bens. O Presidente usou como modelo a fluidez projectada para o Corredor do Lobito, uma infra-estrutura que vai além da dimensão logística, pois tem o potencial de estimular a industrialização e criar novas cadeias regionais de valor, conectando a capacidade produtiva de vários países aos mercados regionais e internacionais.
 

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